Crimes Ambientais e os Caminhos do Desgoverno

Três anos e cinco meses depois, o rio Doce continua morto. As obras de realocação dos moradores da antiga cidade de Bento Rodrigues ainda estão atrasadas. Demoraram a começar, e a Samarco adiou sua entrega para 2020, com estimativa de entregar pelo menos as casas em 2019. O processo contra 21 diretores e ex-diretores da Samarco, para julgar sua responsabilidade no incidente, começou em 2016, mas está suspenso desde julho de 2017. Foram 19 mortos, 39 milhões de metros cúbicos de lama, 400 famílias desalojadas, mais de 10 toneladas de peixes mortos, 650 quilômetros de água doce contaminados, 3,2 bilhões de reais em ações de reparo e fiscalização, 700 milhões em indenizações e 0 pessoas responsabilizadas.

Pouco mais de dois meses depois, o rio Paraopeba continua morto. Com base nos depoimentos de 59 pessoas, o Ministério Público afirma que a queda da barragem não foi um acidente. Foi negligência. Em 2017 a empresa já tinha ciência da existência dos problemas de integridade física dela, mas não tomou as medidas corretas para resolvê-los. E aos afetados e desalojados, lhes resta uma indenização mensal de R$ 998 por adulto e R$ 498 por adolescente e R$249,50 por criança por 12 meses. Foram 179 mortos (até agora), 131 ainda estão desaparecidos, mais de 40 quilômetros de rio contaminados (e crescendo) e risco de contaminação do rio São Francisco.

Que perspectiva temos quanto a nossos rios no futuro próximo? 723 barragens tem alto risco de rompimento e 45 estão com estrutura comprometida. Logo após os eventos de Brumadinho, soaram as sirenes de outras duas barragens pelo iminente risco de rompimento. Se houverem novos crimes ambientais como esses dois, os criminosos se manterão impunes? O que podemos esperar?

Quase nove anos depois, mais de dois mil quilômetros de litoral continuam tendo sua biodiversidade comprometida pela presença de petróleo. 11 funcionários morreram na explosão da plataforma Deepwater Horizon, incidente que originou o maior vazamento acidental de petróleo da história. A petroleira britânica BP já gostou mais de 65 bilhões de dólares por isso, quantia que continua a aumentar. Quase 5 milhões de barris de petróleo passaram a contaminar o Golfo do México, numa região próxima ao litoral americano, afetando cinco estados (Texas, Alabama, Flórida, Mississippi e Louisiana). A empresa quase faliu, mas se mantém de pé. Zero pessoas foram responsabilizadas. E recentemente, o governo Trump afrouxou as normas de segurança para plataformas off-shore.

Com o governo Bolsonaro alinhado política e ideologicamente ao governo Trump, o futuro é sombrio. Os movimentos sociais e socioambientais atualmente já lutam para evitar isso, pressionando o governo para não revogar normas de segurança ambiental e para fiscalizar ou fechar barragens com alto risco de ceder, como ocorreu em Serra Azul (MG). E as barragens não são as únicas que geram preocupação, o Brasil também tem plataformas off-shore, indústrias químicas, usinas nucleares e térmicas, dentre outras construções com risco de explosão, além de locais com risco de deslizamento, como favelas. E, se os padrões se manterem, os únicos a serem prejudicados por esses acontecimentos serão, como sempre, os que tem menos condição de se recuperar disso.

http://envolverde.cartacapital.com.br/como-vai-mariana-quase-mil-dias-depois-da-tragedia/

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/25/politica/1548443780_104893.html

https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2019/03/10/depoimentos-levam-mp-a-afirmar-que-a-tragedia-em-brumadinho-nao-foi-acidente.ghtml

https://www.brasildefato.com.br/2019/02/25/um-mes-do-crime-da-vale-em-brumadinho-mg/

https://www.gazetaonline.com.br/noticias/brasil/2019/02/brumadinho-vale-se-compromete-em-acordo-a-indenizar-moradores-por-um-ano-1014169155.html

https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2019/02/meio-ambiente-o-que-aconteceu-com-os-responsaveis-por-um-dos-maiores-desastres-dos-eua.html

https://www.theguardian.com/environment/2018/jun/28/bp-deepwater-horizon-oil-spill-report

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